“Quem conhece os outros é sábio; Quem conhece a si mesmo é iluminado.”

(Lao-Tsé)

A Maçonaria pressupõe muito estudo e reflexão. Através dos significados ocultos dos símbolos a que somos apresentados, ela propõe uma verdadeira transformação moral a seus iniciados que também incorre em uma evolução espiritual. Esta peça discorrerá sobre os elementos presentes em nossa Ordem que nos indicam a grande importância de nos voltarmos para nós mesmos e buscarmos o conhecimento particular que cada um de nós encerra.

Na iniciação somos submetidos às provas dos elementos onde a primeira, a Prova da Terra, nos confina em um ambiente cuja proposta é a reflexão e o olhar voltado para dentro de nós mesmos. Vendados, pois ainda não vimos a luz, somos lembrados de que a venda material jamais poderá prejudicar a visão intelectual que cada Maçom deve ter, pois na Maçonaria devemos ser investigadores da verdade e devemos nos aperfeiçoar na “Arte Suprema do Pensamento”, a Arte Real, muito citada em reuniões e em discursos, muitas vezes sem a completa consciência de seu verdadeiro significado.

Ainda na Iniciação (e aqui cabe certa dose de discrição a fim de preservar os segredos de nossos mistérios) somos confrontados com a inscrição V.I.T.R.I.O.L., de grande valor se quisermos compreender como o autoconhecimento se relaciona à Maçonaria, a qual devemos dispensar certa atenção. V.I.T.R.I.O.L. é a abreviação da expressão latina “Visita Interiorem Terrae, Rectificando, Invenies Occultum Lapidem” e é um verdadeiro símbolo universal da infinita busca do homem para melhorar e aperfeiçoar a si próprio, bem como a sociedade que o cerca. A tradução literal da expressão seria algo como “Visita o teu interior, retificando-te, encontrarás a Pedra Oculta”. Mas o que seria esta pedra oculta? 

Esta “Pedra Oculta” é uma expressão antiga para a “Pedra Filosofal”, um dos principais objetivos dos alquimistas na Idade Média, pois através dela seria possível transmutar “metais inferiores” (como o chumbo) em ouro. Muitos estudiosos, observando apenas as camadas mais superficiais do conhecimento e (assim como corre na Maçonaria) levaram esta observação ao pé da letra e acabaram por dedicar suas vidas à busca desta substância mágica. 

É necessário utilizarmo-nos da Arte Real e mergulharmos no estudo das camadas mais profundas da expressão V.I.T.R.I.O.L. para extrairmos o seu real significado filosófico: “Visita o teu interior, purificando-te, encontrarás o teu eu oculto”. Esse “eu oculto” nada mais é que a essência de nossa alma, a qual devemos conhecer com clareza se quisermos derrotar nossos vícios atingir o aperfeiçoamento pessoal. Dispondo desta informação, fica claro perceber que a Alquimia medieval, à exemplo da Maçonaria, buscava o aperfeiçoamento humano. A transmutação de metais inferiores em ouro nada mais é do que a transformação de homens inferiores, cheios de vícios e movidos por suas paixões em homens melhores, transformados moralmente e evoluídos espiritualmente. A transmutação de metais é uma outra metáfora para “o desbastar da pedra bruta”, e para a alquimia o ouro carrega um significado semelhante ao que possui a Pedra Cúbica para a Maçonaria.

A quarta instrução de Aprendiz Maçom deixa claro que as três provas seguintes à prova da Terra, significam “as conquistas de novos conhecimentos”, tal afirmação reforça a noção de que primeira prova se destina a reflexão íntima do candidato e a busca pelo seu eu oculto. O “purificando-te” do significado filosófico da expressão V.I.T.R.I.O.L. nos remete às purificações a que somos submetidos na Iniciação, e nos lembra que o homem profano não é bastante puro para chegar ao templo da filosofia, ou ainda à essência da alma humana. Para tal, devemos estar em um constante estado de purificação, obtido através do estudo, do aperfeiçoamento moral e, sobretudo, por meio do autoconhecimento. É somente através deste autoconhecimento poderemos evoluir como seres humanos e como agentes sociais e ele se faz necessário para o desbastar da pedra bruta, uma vez que se quisermos agir movidos pela razão e não pelas nossas paixões, devemos ter plena consciência de nossas ações. 

Podemos ir mais longe e afirmar que só agiremos como a Maçonaria nos ensina se estivermos dotados de total consciência de nosso papel dentro da Ordem, e principalmente na sociedade em que estamos inseridos. É somente de posse deste conhecimento que poderemos exercer de forma integral o nosso papel de construtores sociais.

Ao chegar ao Grau 2, o agora Companheiro, já com os olhos abertos à Verdadeira Luz, não mais trabalhará de forma material, e como destacado pelo Venerável Mestre no início da cerimônia de Exaltação, passará a ser um “Obreiro da Inteligência”, ou seja, deixará de lado estudo simbólico dos materiais de construção (típicos do Aprendiz Maçom) e passará a trabalhar no campo intelectual, através da educação e da ciência. Simbolicamente, o Companheiro representa o verdadeiro iniciado, uma vez que é neste grau que o numero cinco se impõe ao quatro: a Quintessência se sobrepõe ao Quatro Elementos. 

O Companheiro não mais passa por provas físicas, mas sim por viagens que buscam fomentar o desenvolvimento de novas idéias que visam levar o Verdadeiro Iniciado ao estudo das coisas e dos seres para que possa chegar ao conhecimento dos homens e, como destacado na cerimônia de Elevação, ao conhecimento de si mesmo.

Além disso, o verdadeiro propósito das viagens simbólicas é levar aqueles que passam pela Elevação ao domínio de seus vícios e de suas paixões. Este domínio apenas é obtido, como dito anteriormente, através do autoconhecimento, portanto, podemos concluir que as viagens simbólicas nos propõem reflexão e busca pelo conhecimento interior a fim de que possamos chegar ao escopo do grau 2 e ajudar os Mestres na instrução dos Aprendizes.

Já no Grau 3, o Iniciado só poderá trabalhar o autoconhecimento através da vivência da lenda do Grau.  A Lenda Hirâmica carrega as chaves para as maiores realizações que a Maçonaria pode oferecer a seus iniciados e nos apresenta à máxima “o iniciado matará ou iniciador”, que simbolicamente significa que o aprendiz deverá sempre superar seu mestre em termos de conhecimento e perfeição, ou seja, o novo Mestre Maçom deverá se dedicar ao estudo e a desbaste para por fim superar seus Mestres. Se no Grau 1 o Aprendiz aprendeu a dominar os Quatro Elementos e no Grau 2 o Companheiro sobrepôs estes Quatro elementos à Quintessência, vencendo a materialidade mundana, no Grau 3 o Mestre aprende a aplicar a lei do setenário.

Por fim, pode-se concluir que o autoconhecimento é fundamental para que o Maçom supere os obstáculos que podem impedi-lo de alcançar o desbaste de sua Pedra Bruta e principalmente para que possamos nos iluminar e emanar um pouco de luz à sociedade profana que vive imersa em trevas, cumprindo o objetivo principal de nossa Ordem, “tornar feliz a humanidade”.